Estou há uma semana com esse Kindle novo e adorando. É incrível como ele é fácil de usar -- ele já sai da caixa funcionando -- e a tela realmente aguenta horas de leitura. A discussão agora não me parece mais "se o livro digital vai substituir o de papel", etc. Em parte, ele já substituiu. Muita gente já deixou de comprar livros de papel para lê-los no Kindle e uma geração inteira está crescendo sem o mesmo apego que nós temos ao livro impresso.
E isso não é necessariamente uma pena. Porque -- para quem gosta de papel -- o livro impresso não vai desaparecer assim tão rápido. Muita gente ainda vai continuar lendo só assim por muito tempo, e o custo da impressão personalizada, que só cai, vai nos ajudar a manter esse hábito. Eu mesmo, por exemplo, elogio o Kindle, mas não me imagino lendo Guerra e Paz nesse formato -- por enquanto, pelo menos.
Leio no Kindle livros menores e que quero começar a ler imediatamente. Não acho que a leitura digital é um passo ao fim da literatura ou do hábito da leitura mais concentrada; ao contrário: pela minha primeira primeira semana com o Kindle, só acho que ele abre mais opções à ela.
Algumas observações/ comentários sobre o Kindle 2:
- A tela é fosca e a letras são praticamente impressas nela. É uma leitura bem confortável.
- O botões melhoraram muito com relação à primeira versão, em que se mudava a página sem querer. Mas o teclado é uma porcaria -- não sei até que ponto intencionalmente.
- É muito rápido baixar qualquer livro, pela Amazon ou pelo próprio aparelho. Ele já sai ligado à rede de celular -- 3G -- e baixa em segundos o livro que você escolher.
- A opção de baixar samples -- em que você baixa o primeiro capítulo ou, dependendo do livro, um prefácio de graça -- é muito útil. Baixei uns 15 nesta primeira semana antes de comprar um ou outro: The Black Swan
e Fooled by Randomness
, do Nassim Taleb; Twilight in Italy
, do D. H. Lawrence; The Entire Memoirs Of Cardinal De Retz
; The Lives and Adventures of All the Most Notorious Pirates; The Starfish and the Spider
; etc.
- O livro que mais li no Kindle até agora deve ter sido How to Think About the Great Ideas
, do Mortimer Adler.
- Não cadastrei nenhum blog nem jornal no Kindle ainda. O Globo
, aliás, está lá, como único jornal brasileiro disponível no aparelho.
- Não dá pra assinar do Brasil ainda a The Economist
e a The New Yorker
, infelizmente. Me consolei com a assinatura da The Atlantic
e a The Spectator
.
- O site de gerenciamento do Kindle, dentro da Amazon, é muito prático.
- Dá pra ler arquivos em pdf. É só mandar o arquivo pro seu email @kindle.com que ele aparece quase na hora no aparelho. Mandei Helena, do Machado, que peguei no Domínio Público, e a reportagem da The Economist sobre o Brasil, da qual até agora só li pedaços.
- Uma outra coisa muito prática é o dicionário de Oxford vem junto com o Kindle. É só deixar o cursor antes de uma palavra que o verbete aparece no rodapé na página.
- Não usei muito o esquema de anotações, mas parece fácil e útil.
- O browser do Kindle ainda não acessa nem a maioria dos sites listados no aparelho, como o da CNN. Mas acessa a Wikipedia, o que já é bastante coisa.
Sempre quando ouço falar em livro eletrônico me lembro do Ziraldo no Roda Viva, em 1999. Um jornalista -- vejo agora que foi Antonio Rosa Neto -- perguntou o que ele acha do assunto. Ziraldo respondeu que não quer um porque livro eletrônico não tem cheiro, não tem marca de lágrima, não dá pra levar ao banheiro, etc. O jornalista disse que dá pra levar ao banheiro, ao que Ziraldo respondeu: "Mas não dá pra limpar a bunda".
Com o Kindle também não dá, mas também -- exceto o Ziraldo, considerando o que ele anda falando por aí -- acho que não é muita gente que consome livros com esse nível de intimidade.
