Normalmente eu acho que a gente supervaloriza o efeito de grandes acontecimentos na nossa vida particular. Talvez isso aconteça por três motivos: primeiro porque de fato eles influenciam alguma coisa no nosso dia-a-dia; segundo porque eles meio que são uma espécie de ligação entre todo mundo, um consolo num mundo muitas vezes disperso e solitário; terceiro porque eles nos ajudam nos a sentir mais importantes - como um taxista que vive reclamando da corrupção, de CPIs envolvendo gente de quem nunca ouviu falar, mas na verdade o motivo que o faz sofrer profundamente não é maior do que um motoboy que esbarrou no seu retrovisor.
Essas duas primeiras razões - o fato de realmente coisas grandes afertarem nossa vida e essa espécie de consolo que buscamos numa melancolia em grupo - são muito legítimas. E por isso mesmo não é possível escapar por aí. Realmente somos impactados, mais ou menos, pelos grandes eventos; olha o Lula - assunto "Eleições" - com a mão no nosso bolso. E tem aquela sacada: ouça a longa história dos meus sofrimentos, cure a sua dor com a minha dor, etc - é um alívio sofrer em comunidade.
Mas talvez a única saída para desastres coletivos seja uma espécie de alienação sentimental, particular. Ninguém gosta da palavra alienação, ok, e não é exatamente isso. Não digo se afastar completamente do que está acontecendo no Financial Times - mas tomar cuidado para não se deixar ser psicologicamente engolido por isso.
Nosso estado de espírito também pode ser - precisa ser - absorvido por pequenas alegrias. E elas não estão nos jornais. Normalmente não conseguem ser representadas em gráfico - e não têm praticamente nenhuma correlação com a bolsa. A vida depende muito - acho cada vez mais isso - de pequenos detalhes, de pequenos acontecimentos escondidos, sutis, de importância completamente nula para a história da humanidade: mas fundamentais para o nosso estado sentimental.
Numa hora dessas, mais legal do que assistir o Jornal Nacional aflito, de mãos dadas com a família, pode ser ir pra praia sozinho, sentar na areia, tirar um Chicabom do bolso e ver o sol, de novo, com a mais indiferente elegância, calmamente se por.
