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Direto da Flip: João Mereira Salles, Jabor e a classe média

Folheio um livrinho da Folha, "Filmes", em que críticos e cineastas selecionam os que levariam para uma ilha deserta, e encontro, na lista de João Moreira Salles, esta passagem de "Opinião pública", do Jabor: "por não saber pra onde vai, a classe média vive correndo". Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Tom Stoppard, hierarquia e o homem moral

Direto da Flip: Tom Stoppard, hierarquia e o homem moral
Acabou agora a mesa "Shakespeare, utopia e rock'n' roll", com Tom Stoppard apresentado pelo Luiz Fernando Verissimo. Algumas frases que gostei: "Acredito em hierarquia de qualidade, mas não de categoria" e "O homem é um animal antes moral do que político". Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Tenda dos autores

Direto da Flip: Tenda dos autores
A Tenda dos Autores está lotada, aguardando a mesa do horário nobre da Flip: sábado às 19hrs. Se você está assistindo a Bandeirantes, deve ter me visto agora passando atrás da câmera. Alcelmo Góes diverte uma turma enorme aqui do lado, e esbarro com Sérgio Rodrigues, do Todoprosa. Está todo mundo entrando agora, inclusive eu, para ouvir Tom Stoppard mediado pelo Luiz Fernando Verissimo.

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Direto da Flip: Um poeta ecológico

Um cara de barba fala na frente de uma igreja em Parati: "o pior analfabeto é o analfabeto ecológico", "que ama o shopping, o consumo", "e como disse Marx", etc. Acabou e, de repente, o pessoal envolta continua com o pandeiro: "poesia na roda aê, quem chegou é bem chegado". No fundo, tenho vontade de ficar aqui.

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Direto da Flip: Um Diogo Mainardi colombiano

A mesa com o colombiano - Fernando alguma coisa - está cômica. Ele está debochando descaradamente do Lula, mais ou menos assim: "aquele gordinho que acabou com a fome do mundo, ou pelo menos do Brasil". Foi ele que disse - ou insinou -, nos últimos dias, que não é pra se comemorar que Ingrid está solta. Ele ridiculariza todos os lados da coisa - as Farc, Uribe, sem dó. É uma espécie, me parece, de um Diogo Mainardi colombiano, mas não sei bem o que o adjetivo colombiano significa.

O mediador pergunta se ele acha que a raiva pode ser um motor para a literatura. Ele diz "coitadinho do (holandês com que ele divide a mesa), ele precisa viajar pra países como a Colômbia, o Equador", pra se inspirar, porque "ele vem de um país de onde nada acontece". A platéia cai na risada.

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Direto da Flip: Lotação

Direto da Flip: Lotação
Só para mostrar - para quem ainda não acredita - como tem gente que gosta de literatura. Enviado do meu BlackBerry®

Direto de Parati: Um comunicador social

No café da Tenda dos Autores tem um atendente muito simpático, rápido, de óculos. Ele acabou de trazer um café para a menina do meu lado, e por algum motivo completou, sorridente: "vinte anos de comunicação social deve ter me ajudado em alguma coisa".

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Direto da Flip: Machado é expulso da Flip!

Direto da Flip: Machado é expulso da Flip!
Dois policiais querem expulsar o Machado da Flip. Está a maior bagunça na entrada da ponte. Mais de cinquenta pessoas - incluindo eu - gritando "Machado, Machado!". Todo mundo tirando foto e vários jornalistas pensando na manchete de amanhã. Muita gente gravando entrevista com Machado, que insiste: "a democracia é igual para todos". Machado é comparado com Elvis, que também não morreu. "Desta terra e deste estrume, nasceu esta flor." Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Pra que serve a ficção?

Do autor de "Seda": "pra deixar feliz quem escreve, em grande parte". E do Contardo: "a ficção tem uma função de enriquecer a fição da nossa vida". Não são as respostas perfeitas - respectivamente - do escritor e do leitor?

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Direto da Flip: Contardo, Conrad e ficção - na pipoca

Contardo Calligaris está conversando com o autor de "Seda", elogiadíssimo, que quero ler. Esta é a segunda vez que ouço Contardo citando Conrad hoje: "eu descobri a força da ficção com O Coração das Trevas", no Letra Viva, de manhã, e "não é por que assisto Appocalipse Now que não vou ler o livro", agora, na mesa. (Estou assistindo aqui, pra variar, na pipoca.)

A segunda afirmação é óbvia, claro, mas estava no meio de um discurso muito interessante, em que no final pesquei esta frase: "a nossa vida tem que ter a dignidade de uma ficção".

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Direto da Flip: Blog também é jornalismo

Direto da Flip: Blog também é jornalismo
Pelo menos na Flip. (Obrigado, Digestivo.) Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Na tv, fantasmas, calçadas e bastidores

Estava hoje de manhã no Letra Livre, o programa de tv cultura sobre literatura. Os convidados foram o Contardo Calligaris - o psicanalista que publicou agora "Conto de amor" - e o Humberto Werneck - que publicou a biografia, esqueci o nome agora, de uma figura que influenciou Vinicius, Bandeira, etc. Muito bom, o papo. Perguntei pra eles qual foi o primeiro estímulo que tiveram para começar a ler, e a resposta foi unânime: "creci numa casa com uma biblioteca enorme". Citaram Tolstoi, Camus, Conrad.

Humberto foi perguntado novamente sobre "Pequenos Fantasmas", um livro de dez contos que escreveu na juventude e em 2005 distribuiu 500 cópias para amigos. O que ouvi, de amigos que leram (o Julio Borges, do Digestivo), é que é uma pequena pérola da nossa literatura, e que é uma pena que não saia mais comercialmente. Humberto se defendeu dizendo que é um livro muito pessoal, íntimo, e que até estranha que tenham saído resenhas nos jornais e que as pessoas tenham se interessado. Mas confessou que considera uma publicação mais ampla, talvez em breve - "convites não faltam".

Me disseram, aliás, na linha dos-bastidores-da-Flip, que a primeira coisa que Contardo falou quando chegou na cidade foi: "na próxima encarnação, quero narcer ortopedista em Parati". (Tenho ouvido muita gente que participaria da campanha "Vamos arrumar as ruas/calçadas de Parati".) Mas não sei se é uma profissão mais promissora do que psicanalista em São Paulo em 2008.

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Direto da Flip: Poesia na casa do príncipe

Ontem foi o dia do clássico sarau na casa do príncipe. Joãozinho - surfista, fazendeiro, fotógrafo, profiled by The New Yorker -, que anda de botina Zebu e a quem todo mundo se refere com intimidade, abre o jardim da sua casa para uma pequena bagunça cultural. A organização e as apresentações são quase profissionais. A pinga não acaba, e é servida pelo mesmo pessoal que, de megafone, você não sabe sabe se está lá para organisas as coisas ou agitar um pouco mais.

De qualquer forma, a coisa funciona, quase impecável, e o pessoal vai se revezando e se divertindo. As palavras mais ouvidas foram "poesia", de quem se apresentava ("ah, a poesia que está dentro de nós"), e, de fora, "príncipe", disparadamente ("cadê o príncipe", "quem é o príncipe", "o príncipe", etc.). Melhores momentos uma gordinha declarando o seu amor ao chocolate e uma série de ouvios, da platéia, quando alguém lá falou de um lobo ("aaauuuuu"). Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Mal humor

Thai Brasil - que, aliás, é o nome de um restaurante em Parati - significa na verdade "o serviço mais mal humorado do Brasil". Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Por que o brasileiro não lê

Estava conversando agora com um dos fundadores da Flip: "brasileiro não lê por causa desses caras tipo Roberto Schwartz". Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Um economista na Flip

Gustavo Franco está lendo uma crônica de Machado sobre sobre economia. O auditório da Casa da Cultura - novo, muito bonito, simpático - está lotado. No fundo, o logo da Rio Bravo, seu banco de investimento.

O público - de todas as idades- ri a cada duas linhas que Gustavo lê, sem exagero. Não existe esse cronista econômico hoje - ok, Machado não era cronista econômico, mas que cronista social escreve hoje sobre sobre economia e, além disso, de forma engraçada?

Gustavo acaba de ler e a mediadora abre a perguntas da platéia: "Por favor, Pedro Malan". "Você acha que você descobriu um filão - pegando escritores com qualidade literária, como Fernando Pessoa, Machado, e selecionando seus textos sobre econonia. Porque no ano que vem eu estaria aqui na Flip pra ouvir você falar sobre o próximo escritor." E Gustavo lembra de uma frase de Pessoa - "poetas também fazem supermercado" - e diz que está lendo trechos de Shakespeare com interpretação literária.

Um dos bons momentos: "Pessoa é surpreendentemente lúcido em economia. Não é um privilégio de pessoas árias e sem-graça." Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Estética da crítica

Assisti uma ou duas aula com Samuel Titan Jr. sobre Flaubert. Me lembro que gostei muito. Ele tem uma capacidade impressionante de dividir um livro em vários aspectos e explicá-los, conversar sobre eles num nível de detalhe iluminador.

Ele está agora mediando uma mesa boa, com Vitor Ramil, Martin Kohan e Nathan Englander. O que vão dizer é que a conversa está acadêmica, erudita, porque Samuel está levando o papo para um lado mais - como dizer? - de crítico literário. Mas não acho que ele deixa o negócio chato, duro. Acho que ele de fato consegue fazer com competência o trabalho do crítico. Nem sem é fácil, acessível, mas, quando é, é maravilhoso. Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Um segredo

Não conta pra ninguém. Na pastelaria de Parati também dá pra carregar o celular. Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Libera aê

Do Misha, uma sugestão com a qual concordo, e só não aplaudi porque estou escrevendo aqui: "a gente sabe, cientificamente, que maconha não trás o mínimo problema se comparada com o álcool. Então por que a gente não libera a maconha e se, em cinco anos, a civilização ocidental não tiver entrado em colapso, a gente vê como trata as outras"?

E mais, pra acabar: "quem menos quer ver a droga legalizada é o Taliban, as Farc". Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: As melhores intenções

Markun perguntou se Guilherme Fiuza não pintou um "quadro um pouco cor-de-rosa dos embalos de sábado" e "passado a mão na cabeça do usuário". Soluços de aplausos.

Guilherme: "Talvez eu tenha um pouco essa boca torta mesmo". E mais: "Nossa sociedade, com a melhor da intenções, está oprimindo esse usuário. A gente vai no slogan, tô fora, e a molecada pensa que esse cara não sabe nada, não te ouve". Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: A fome

Guilherme Fiuza - calmo, discreto, articulado - fala as coisas da forma como as pessoas querem que o Diogo Mainardi fale. Talvez por isso não seja tão conhecido, infelizmente. Alguma coisa assim: "nós, cultos, classe-média, parece que só conseguimos nos sensibilizar com alguém que passou fome. Se o cara é branco, de classe-média, tem que trabalhar, funcionar. Como se não existisse dramas sentimentais, psicológicos". Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Os fuzis

Estou pela primeira vez na Tenda dos Autores, este ano, e de novo: esta muito bonita. Misha Glenny, inglês, que escreve sobre crime internacional, veio conversar com Guilherme Fiuza, autor de "Meu nome não é Johnny" e - mais do que isso - daquele blog excelente sobre política. (Fiuza, na verdade, veio substituir Caco Barcellos.) Paulo Markun - agora praticamente um empresário - é o mediador.

Muita gente aqui, incluindo embaixadores aposentados, príncipes, etc. O assunto - violência, crime e, talvez mais do que isso, jornalismo sobre tudo isso - deve interessar todo mundo. Misha fez uma apresentação rápida, simpática, mas talvez um pouco institucional demais. Guilherme Fiuza começou a falar agora: "Meu nome" "não é um livro sobre sobre crime organizado, é um livro sobre um cara". Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Como reconhecer alguém

Se você vir alguém, na Flip, andando com um carregador de celular pendurado no pescoço: sou eu. Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: A piauí e um clássico

A piauí é a melhor revista brasileira de todos os tempos. Ainda não vi ninguém escrever isso. Também, é difícil cobrar isso dos jornalistas, que ou (1) não colaboram com a revista e são meio vaidosos, ou (2) ou trabalham na revista e estão comprometidos ou (3) são saudosos - Senhor, etc. - que esperam as coisas acabar para elogiar.

E os leitores, como eu, que não tem muita referência da história do jornalismo brasileiro, acabam não reconhecendo a qualidade do que está hoje nas nossas bancas. A primeira frase deste post pode não ser exatamente verdade - nunca seria -, mas a verdade é que sinto falta, em outras publicações, da qualidade do texto da piauí.

E quem publicaria - antes deles - "Nasce um clássico", sobre o lançamento do cd do Roberto Justus? Enviado do meu BlackBerry®

Direto da Flip: Um blogueiro oficial

Dos bastidores: o blog ofical da Flip está sendo escrito por um uma pessoa pouco oficial: o Fábio. Tinha que ser ele: "Encontra-se de tudo em Parati durante a Flip. [E uma série de fotos de lojas da cidade.] Só não encontramos uma livraria." Demais.

Direto da Flip: Primeiras impressões

A noite de quinta-feira, na Flip, é menos cheia do que as seguintes, mas as figuras estavam aqui. A apresentadora de tv com o ex-ou ainda é presidente da Biblioteca Nacional (que ganharia qualquer prêmio de casal mais simpático do evento), o presidente da tv pública ("subiu à cabeça", dizem), o editor-patrocinador rodeado de - ao menos aparentemente - escritores, etc.

Parati - Sérgio Rodrigues me convenceu a contunuar escrever sem "y" - está praticamente completa, portanto. Não vi muitos escritores da nova geração, mas não sei se os reconheceria nem sei, na verdade, se ainda existem. Como fantasmas, porém, pode ser apareçam atrás de uma porta - ou, é preciso tomar cuidado, de um armário.

O que ouvi é que a Flip este ano está mais acadêmica, por causa do curador, que é diretor do, se não me engano, Cebrap. Faltam grandes nomes, Nobels, Martin Amis da vida, que atrairiam mais gente, talvez. Não sei se isso é necessariamente bom. E, de qualquer forma, neste ano também bons nomes estão aqui.

Modesto Carone, por exemplo, que está falando agora. A sua tradução de Kafka é elogiadíssima, e seu nome está em várias das publicações mais bacanas que saem aqui - assinando ensaios - como em Bartleby, de Melville. É legal ver Modesto Carone ligando Guy de Maupassant a John Ford - gosto de ouvi-lo falar. A pena é que ele, como Ingo Schulze, seu companheiro de mesa, acabou mais lendo trechos de contos, até onde vi.

Gostaria muito de ver mais os autores conversando, discutindo sobre livros e literatura de uma forma menos formal, menos, se quiser, literária. É importante que a Flip ajude a desborocratizar a literatura. Acho até que a sua proposta é mais ou menos essa. Ou seria um Seminário, e não, como é, uma Festa.

Três livros, Marcel Telles e um título

Um amigo me pediu três dicas de livros de business, e aqui vão (a nota ao lado é baseada no critério da Inc.):

Estive recentemente, aliás, num encontro com o Marcel Telles, e os dois livros que ele recomendou foram Doing What Matters e o Double Your Profits. O James Kilts, claro, ele conhece bem pessoalmente, porque o Jorge Paulo Lemann – citado no livro, aliás – , seu sócio, estava no board da Gillete quando James Kilts, contratado por Warren Buffet, foi CEO.

Mas o clássico mesmo, e pouquíssimo conhecido, é o Double Your Profits, que o Marcel Telles acha que é talvez o melhor livro de business já escrito e – concordo – provavelmente o com título mais estúpido. Bob Fifer escreve com uma clareza e uma sem-cerimônia que são raríssimos em ambientes corporativos. Ah, e o sub-título, pra completar: "In Six Months or Less".

Wes Anderson é uma das coisas que a gente gosta

Descobri que o Wes Anderson foi o décimo post de um blog que gosto: Stuff White People Like. Às vezes é bom ir lá na lista completa só pra lembrar das coisas que gostamos (e de que, sem perceber, em seus melhores momentos a nossa vida também pode estar virando um clichê): sweaters, lembranças ruins do ginásio, New Balance, divórcio, vintage, maratonas, odiar os pais, comparar as pessoas com Hitler, café, música indie, sanduíches caros, saber o que é melhor para os pobres, religiões diferentes dos seus pais, estudar fora, não ter tv, Barack Obama, etc. Sobre Wes Andersom, voltando:

White people love Wes Anderson movies more than they love their kids. If a white guy takes a white girl to a Wes Anderson movie on their first date, and neither of them have seen it, they will immediately commence a relationship that is reflected in songs by Ryan Adams and Bright Eyes.

Wes Anderson movies have this way of being sort of funny and a little clever, so white people in the audience will laugh like crazy. Also, if they don’t get the joke and other white people start laughing, they’ll all join in. It’s pretty much the case that if one dude with glasses laughs, the entire theater will be in stitches within 15 seconds.

Critérios para livros de business

Só reparei agora no critério que a Inc. usa para dar nota aos livros que resenham: "1 = Who Moved My Cheese?, 10 = Good to Great". Alguém entenderia a diferença, no Brasil?

Sobre o ódio à literatura

Leio no Polzonoff que algumas pessoas estão assustadas com comunidades tipo "Eu odeio literatura" no Orkut. Não deveriam. Provavelmente não é a abertura de espírito e ao mundo que essas pessoas odeiam. O que deve incomodar é o tom monótono, chato, que empacota os escritores na sala de aula. Eu também odiava literatura com 15 anos.

E a literatura de verdade também não vai acabar só porque algumas pessoas estão dispersas demais. Existe nos grandes escritores um compromisso com essa verdade mais profunda, escondida, que não aparece em outro lugar. Sempre alguém vai sentir falta disso. A literatura vai resistir enquanto houver resquício de civilização, e, quando não houver mais, ela vai lá no fundo resgatá-la (a literatura resgataria a civilização, digo). Não adianta atacá-la e não é preciso defendê-la.

Flip 2008: estaremos lá

A Flip 2008 começa esta semana. Chego lá na quinta à noite, se tudo der certo. (Vou perder, infelizmente, a mesa com o Michel Laub.) E continuo aquele estilo de cobertura, com a qual, no ano passado, muita gente se divertiu. Este ano pelo blog e, como não podia deixar de ser, também pelo Twitter.

Aceito sugestões de mesas, autores ou programas impoerdíveis (se houver).

Twitter, People in the sun e TwitterBerry

Coloquei People in the sun no fundo de tela do meu Twitter. E voltei a atualizar mais. (Esse TwitterBerry ajuda.) Depois – como a gente quer saber quando experimenta uma camisa nova – diga se ficou bom.

Guimarães Rosa, 100 anos, e citações

Confesso que tentei - mas nunca li direito Guimarães. E, ao mesmo tempo, quando esbarro com passagens de seus livros - o que tem acontecido muito nos últimos dias, por causa do seu centenário (Pedro Dória colocou bons momentos no seu blog) -, fico quase paralisado. É incrível como ele conseguia reduzir os sentimentos mais complexos em duas, três palavras que dizem tudo.

Me lembro de um ensaio sobre Guimarães numa coletânea sobre escritores diplomatas, em que em quase todo parágrafo citava passagens do seu diário. Eu relia cada frase umas cinco vezes, impressionado. A forma como Guimarães pontuava seu texto é também - eu não diria exemplar, porque é inimitável - espetacular.

O Daniel Piza lembrou hoje de uma passagem boa de Riobaldo: "O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais". E lembrou que "Rosa dizia que cada palavra devia conter "meditação ou aventura"". Perfeito. Talvez porque o ritmo da vida também esteja dividido entre esses dois termos.

ResultsON e uma pauta que faz falta – ou fazia

Descobri agora, por um anúncio na piauítambém fiz o meu –, esta revista ResultsON. Falta uma revista assim no Brasil – com uma pauta menos careta, menos corporativa sobre business e, ao mesmo tempo, ligada também em assuntos que não são só tecnologia. Faltava, talvez.

Amazon, Ebay, Yahoo! - e Google e Microsoft, em uma imagem

Na Economist, que resume tudo:
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Cão sem dono e o novo cinema brasileiro

Trechos (sem comentários) de Cão sem dono, filme do Beto Brant baseado no livro Até o dia em que o cão morreu, do Daniel Galera (ou: "As aventuras sentimentais de Ciro, um Jovem Intelectual"):

  • 0min: Sexo na sacada do apê.
  • 5min: Vômito de cueca na privada.
  • 6min: De regata, conversa com um artista: "Você é um artista".
  • 7min: Conversa com Marcela, a namorada-modelo-enigmática: "e o que é a vida senão sonhar?". "É viver".
  • 13min: Namorada pelada, sexo interrompido.
  • 15min: De cueca preta, bate-papo com amigo da namorada e apreciação do quadro pintado pelo porteiro do prédio: "muuuito loco".
  • 17min: Jantar na casa de anã grávida, tatuada e com um top preto com uma estampa prateada: "Trash".
  • 20min: Fumando um back do tamanho de uma banana depois de uma "lasanha gourmet".
  • 23min: Pudim e papo sobre viagem pra Índia, ioga, meditação e sexo tântrico. (Não escrevi "sexo tântrico comendo pudim".)
  • 26min: Sexo no mais íntimo detalhe e, de repente, um violão. (Não disse "fazendo sexo com violão".)
  • 29min: Uma poesia: "Marcela linda, gostosa, deliciosa".
  • 35-53min: Crise profissional, Marcela sai do apê, pai passa por dificuldade. Sexo e uísque.
  • 55min: Um texto sobre a solidão: "um cigarro tem tempo de vida, minha vida precisa de um cigarro".
  • 1h: Um arroto, um choro. (Não identifiquei a ordem.)
  • 1h01min: Confissão do pai, na beira da praia, de uma juventude turbinada por cocaína: "Não sei por que, precisava te contar isso".
  • 1h09min: Leitura do trecho de um livro, acho, russo. (Em português, mas não entendi.)
  • 1h12min: Balada, cerveja, cigarro, beijo na boca. Música ao vivo.
  • 1h13: Tour de cueca no corredor de casa.
  • 1:14: Enterra o cachorro, Marcela convida Ciro para ir para Barcelona. Um sorriso redentor.

Tudo que você precisa na vida

Às vezes tenho vontade de colocar o slogan da Monocle no topo deste blog: "A fresh focus on global affairs, business, culture, design and all you need in life".

A parte do "all you need in life", na verdade, ainda estou descobrindo o que inclui.

Baldassare Castiglione e um elogio à naturalidade feminina

O cortesão, de Baldassare Castiglione, é uma espécie de guia de boas maneiras escrito na Itália renascentista de 1528. É escrito em forma de diálogo, em que os participantes conversam sobre o homem - e mulher - ideal.

Esbarrei agora com este trecho e precisei citar aqui:

"(...) dizíamos que suma desgraciosidade traz sempre para todas as coisas a pestífera afetação, e, ao contrário, graça extrema a simplicidade e a displicência. Para louvar esta última e criticar a afetação muitas outras coisas poderiam ser afirmadas; mas só quero dizer uma única e nada mais. Grande desejo tem universalmente todas as mulheres de ser e, quando ser não podem, ao menos parecer belas; porém, quando a natureza em alguma parte falha nesse ponto, elas se esforçam por supri-la com artifícios. Assim, surge o hábito de enfeitar o rosto com tanto esmero e até pena, de raspar as sombrancelhas e a fronte, e de usar todos aqueles recursos e sofrer aqueles aborrecimentos que vós, mulheres, acreditais serem secretos para os honens, e no entanto todos os conhecem.

"Não vos dai conta de quanto mais graça tem uma mulher, a qual, embora se penteie, o faça tão parcamente e tão pouco que quem a vê fica em dúvida se está penteada ou não, do que outra, tão empastada que parece ter posto na face uma espécie de máscara e não ousa rir para não a fazer rebentar (...)

"Haveis alguma vez observado que, seja indo pelas ruas à igreja ou a outro lugar, seja brincando ou por outra causa, acontece que uma mulher tanta roupa retira que o pé ou um pedaço da perna acaba mostrando sem se dar conta? Não vos parece que exibe uma enorme graça, se nisso se vê uma certa disposição feminina, elegante e rebuscada em seus laçarotes de veludo e meias limpas? Certamente isso a mim agrada muito, e creio que a vós todos, porque cada um considera que a elegância, uma parte tão oculta e raras vezes vista, seja naquela mulher mais natural e própria do que forçada, e que ela não pense obter com isso nenhum elogio."

Não só por essas passagens: parece que foi escrito ontem.

Sex and the City e como tapar um buraco existencial

Lúcia Gimarães hoje, no Estadão, tentando, como Lee Siegel, salvar as mulheres delas mesmas:

"O quarteto no filme faz concessões ou consegue o que quer (consumo e estabilidade). É o desfecho temporário para personagens que passaram dez anos oscilando entre a obsessão com o anel - a aceitação social trazida pelo casamento - e a promiscuidade sexual, dois extremos que não reconheço entre mulheres educadas e não psicóticas. Elas celebram a confusão entre o poder de compra com a compra de coisas para tapar o buraco existencial."

Por que ainda não estudo literatura

Descobri agora que um texto meu antigo, de 2004, "Por que eu não estudo literatura", está causando polêmica num egroups bem frequentado. A frase que discutem é "Porque a principal utilidade da Literatura, para mim, é potencializar o aproveitamento da vida prática – e esse aproveitamento acabaria, se eu me dedicasse exclusivamente aos livros". Isso ainda é verdade, para mim. (Apesar de agora me arrepender de expressões como "potencializar o aproveitamento".)

Mas não por que acho que literatura só interessa se for útil para construir pontes. A vida prática não é composta apenas por concreto. Acho que os sentimentos e relações mais sutis, mais delicados, e os mais fascinates exercícios de imaginação também fazem parte dessa, já que chamei assim, vida prática, real. Talvez o parágrafo que expresse melhor minha opinião ainda seja este:

Porque eu acredito que o gosto literário – e por Literatura – aparece e se desenvolve naturalmente. E precisa ser assim. Com conselhos de amigos e ajuda de críticos, claro, mas sem o apoio de uma instituição dura, rígida, como uma universidade. A principal função da Literatura – a educação sentimental, digamos assim – desaparece quando a dedicação aos livros se torna obrigatória e mecânica.

Uma neurose legal

Há duas semanas instalei esse Rescue Time. Talvez você também se assuste com o tempo que gasta em emails. Pode ser o cúmulo da neurose com o relação à produtividade, tudo bem. Mas é bem legal.

Um blog não pode parar

Tinha quase me esquecido, confesso: não consigo ficar sem escrever. Depois de quase, não sei, oito anos?, escrevendo constantemente, acho que esse hábito virou parte de mim. Escrevi muito pouco este ano e não fui mais feliz por isso. Descansar deste blog não foi igual descansar da vida, como dizem - ou dos problemas da vida. Manter este blog não é exatamente um problema.

Conclui isso agora, meio sem querer, por vários motivos. Primeiro porque ando sentindo falta de uma coisa meio abstrata que acho que é isso mesmo: falta de escrever. Segundo porque todo mundo vive me perguntando por que escrevo menos agora, e me incomoda não ter uma resposta boa. E terceiro porque acho legal que ainda apareçam citações deste blog por aí, links em blogs novos, etc. - e, se publico pros outros, nada me convence mais de que ainda vale a pena.

E também, pô, a vida não pára. Li umas coisas boas ultimamente, tipo A Idade Viril, do Michel Leiris, que, se fosse mulher e quisesse entender os homens, compraria correndo. Vi quase tudo do Truffaut e Billy Wilder nos últimos meses, e agora decidi passar a limpo Renoir e Frank Capra. Fiz uma primeira maratona em abril e ainda sofro por isso.

Um monte de coisas, enfim, que queria escrever sobre e não escrevi. Mas espero – vou trabalhar para isso – que outras aconteçam para continuar escrevendo. A vida não pára e este blog não pode parar.

Arquitetura

Arquitetura = Renzo Piano.

Um artista

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Do Hugh MacLeod, que entende tudo.

Out of Print

Para quem ainda não acredita, agora - se não bastasse a Economist - na New Yorker:

Few believe that newspapers in their current printed form will survive. Newspaper companies are losing advertisers, readers, market value, and, in some cases, their sense of mission at a pace that would have been barely imaginable just four years ago. Bill Keller, the executive editor of the Times, said recently in a speech in London, "At places where editors and publishers gather, the mood these days is funereal. Editors ask one another, 'How are you?,' in that sober tone one employs with friends who have just emerged from rehab or a messy divorce." Keller's speech appeared on the Web site of its sponsor, the Guardian, under the headline "NOT DEAD YET." Perhaps not, but trends in circulation and advertising––the rise of the Internet, which has made the daily newspaper look slow and unresponsive; the advent of Craigslist, which is wiping out classified advertising––have created a palpable sense of doom. Independent, publicly traded American newspapers have lost forty-two per cent of their market value in the past three years, according to the media entrepreneur Alan Mutter. Few corporations have been punished on Wall Street the way those who dare to invest in the newspaper business have.

Pelo Julio.

Michel Leiris

Tenho lido Michel Leiris religiosamente. África Fantasma - seu diário da expedição Dacar-Djibuti, de 1931 a 33 - tem passagens maravilhosas sobre todos os assuntos que interessam: viagens, literatura, antropologia, psicologia, etc., e, se quiser, mulheres. Um espetáculo.

Algumas passagens (daqui):

24 DE MAIO DE 1931

"Começa a fazer tempo bom e calor. Pela manhã, conversa e aperitivo com o comandante. Ele nos conta que os kruman da embarcação têm o costume, quando querem combater a febre, de introduzir uma pimenta no ânus. Por outro lado, a pimenta é um dos elementos essenciais da alimentação deles. Também nos disse que, em determinados portos africanos, para combater o alcoolismo, proibiu-se até a importação de álcool inflamável.

À tarde, grande sessão de engraxar botas e sapatos sobre o convés, torrando ao sol. Estamos agora ao largo da costa do Marrocos. Alguns sinais de regiões quentes: surgem baratas nas paredes; durante o almoço, algumas formiguinhas passearam pela toalha de mesa e subiram no pão.  À tarde, avisto águas-vivas de cristas violetas deslizando ao longo do casco do navio. Passei a noite com Griaule, no castelo da proa, conversando; ele deitado, eu sentado, olhando a roda da proa, o céu, a espuma etc. Lembrança de uma canção: Nous partons pour le Mexique/ Nous mettons la voile au vent..." (Em tradução livre: Partimos para o México, zarpamos a todo vapor).

23 DE JULHO DE 1931

"Sonhei que uma de minhas apreensões se realiza e que começo a ficar careca de verdade. O que se manifesta pela formação, sobre a parte direita de minha cabeça, um pouco à frente do occipício,     de um lugar descoberto que, visto de perto, se revela arenoso e pedregoso, com um pequeno oco que posso escarafunchar com o indicador, como escarafuncharia uma escavação arqueológica, e cuja forma alongada me faz lembrar um sarcófago... Griaule, por sua vez, febril, sonhou outra noite que deveria levar leões a um museu.

Afora isso, chuva e 99% de umidade no higrômetro. Larget – com quem saímos em busca de outras lapas e outras grutas e que, mais uma vez, descobre grafites – me fala de geologia e paleontologia. Para mim, o martelo que leva eternamente à mão e seu jeito desengonçado evocam sempre o velho mineiro de Goethe, Zacharias Werner, ou então Wilhelm Oken, a teoria netuniana e os Naturphilosophen do romantismo alemão".                  

30 DE ABRIL DE 1932

"O motorista, que passou a noite com amigos, está completamente bêbado. É preciso impedi-lo de       fazer qualquer coisa, pois quebraria tudo. A volta sem pneus de reserva é muito inquietante: com um pouco de azar, o menor contratempo poderia nos deter por dois ou três dias. Felizmente, tudo corre bem. Tivemos de parar com freqüência, o bêbado sentia vontades incessantes de mijar e se queixava com voz pastosa em abissínio…

Agora, a carniça de camelo foi abandonada pelos abutres. Está completamente limpa. Restaram apenas os ossos.

Choveu ontem. O caminho está bastante enlameado. Quando as chuvas se instauram isso deve virar um senhor lamaçal!

Griaule envia um novo telegrama a Adis Abeba, informando que a alfândega de Gallabat ignora tanto os vistos de entrada como os telegramas em francês que nos foram enviados. À noite, tornados ameaçadores. Céu, mais do que nunca, carregado de nuvens hipertrofiadas. Veios de raios. Farrapo de céu cor de enxofre ou azul metálico. Muito suor e pouca chuva orvalham em gotículas. Subi romanticamente no terraço para ver a procissão de tempestades avançar; desci para jantar."

14 DE SETEMBRO DE 1932

"Não pude manter atualizado este diário nos últimos três dias. Ocupado demais, vi coisas  demais.

Faltou pouco para eu ser privado do sacrifício a Abba Moras Worqié, sobrevindo um drama familiar (rapto de uma moça, seguido de briga, ou ameaça de briga) domingo, na casa de Emawayish, em Qeddous Yohannès, seu bairro. Mas apesar do transtorno provocado pelo acontecido, o sacrifício foi realizado segunda-feira de manhã, como combinado. Vi Emawayish em transe fazer o giro com a cabeça e o balanceio pendular com o tronco, que constitui o gourri. Eu a ouvia, com uma voz mais grave do que a habitual, declamar o tema de guerra de Abba Moras Worqié, entremeado de rugidos. Eu a vi beber sangue. Eu até  a vi sentada, a cabeça coberta com o peritônio e o intestino enrolado ao redor da testa; depois, indo do meio da sobrancelha até a nuca, em forma de crista – véu delicado e cimeira orgulhosa resplandecendo  na penumbra, com um brilho um pouco azulado, lembrando a cor de suas gengivas, pintadas à abissínia, em cima, com dentes cor de leite. Eu nunca sentira a que ponto era religioso, mas de uma religião em que é necessário que me mostrem o deus... ".

26 DE DEZEMBRO DE 1932

[...] “Idéia de um conto, cujos elementos seriam tomados de empréstimo, no sentido mais amplo, da presente realidade. Uma personagem do gênero Axel Heyst. Igualmente gentleman, porém menos endinheirado. Muito mais tímido, ainda mais reservado. Atenção meticulosa que dedica ao vestuário. Uma mancha na roupa branca o enlouquece. Mesmo impecavelmente vestido, parece ter sempre vergonha. Perfeição de suas toalhas de mesa e de seus guardanapos. De ordinário, é calado. Muito raramente (do nada ou se toma alguns uísques) se anima. Portanto, fala com um tom frio e arrogante, tratando os assuntos sexuais com uma espécie de cinismo que também pode ser uma forma de objetividade científica. Exerce uma atividade qualquer numa colônia qualquer. Não é sociável, mas é capaz, como Axel Heyst, de ser obsequioso. Uma só vez, ele se permitiu um pouco; numa conversa, durante um jantar de homens, disse rindo que as questões sexuais não lhe interessavam pessoalmente, dado que é impotente. Essa brincadeira agradou muito. Axel Heyst agora passa por ser capaz de se mostrar, de acordo com as circunstâncias, um companheiro jovial. Como nunca se soube da existência de mulheres, acredita-se que seja homossexual; o cinismo de algumas de suas palavras pode ter contribuído para isso. Por outro lado, diz com muita naturalidade que as mulheres não são necessárias, pois existe a masturbação. Alguns dizem que não é “homem”: não faz nada, não caça, é muito mole com os indígenas, se atormenta com muita facilidade. Entretanto, em circunstâncias graves, chegou a mostrar sangue-frio. Até aqueles que mais o denigrem, lhe concedem alguma dignidade. Mas é certo que não gostam dele. O único homem a quem está um pouco ligado é o médico, com quem conversa muitas vezes sobre ciências naturais e   etnografia. Mas, com o médico, não passa disso. Nunca é cínico e evita cuidadosamente tudo que     possa estar relacionado à sexualidade e à psicologia.

Um belo dia, uma novidade corre a colônia: há uma mulher em sua vida. À noite, um moleque viu uma indígena entrar na casa dele e sair alguns minutos depois. Mas nada na atitude de Axel Heyst permitiria supor que algo tenha mudado. Ainda freqüenta o doutor com muita regularidade, ou vai jantar na casa dele ou o convida para jantar. Uma noite, o doutor está pronto para dormir quando Axel Heyst chega, desculpando-se muito. Segura o lenço como tampão sobre a testa, perto da têmpora, e o lenço está manchado de sangue. O doutor pergunta o que acontece. Um pouco constrangido, Axel Heyst responde que se feriu ao descarregar o revólver. Bastante confuso, diz, abaixando os olhos e sorrindo, que o conhecem bem na colônia, que não é caçador nem soldado, que não tem o hábito das armas, que é muito desajeitado etc. O doutor faz um curativono ferimento – que é superficial –, manda-o embora.

Algumas semanas depois, o doutor vem a saber que Axel Heyst – que deveria ir à Europa em férias – não viajou. Durante todo esse tempo, ele saiu muito pouco. Como também partirá em viagem, o doutor quer se despedir de Heyst; passa várias vezes na casa dele, mas não o encontra. Finalmente, embarca sem o ver. Conhecendo Heyst, tão educado, não é  capaz de conter certo mau humor” [...]