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Arquitetura = Renzo Piano.

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Do Hugh MacLeod, que entende tudo.

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Para quem ainda não acredita, agora - se não bastasse a Economist - na New Yorker:

Few believe that newspapers in their current printed form will survive. Newspaper companies are losing advertisers, readers, market value, and, in some cases, their sense of mission at a pace that would have been barely imaginable just four years ago. Bill Keller, the executive editor of the Times, said recently in a speech in London, "At places where editors and publishers gather, the mood these days is funereal. Editors ask one another, 'How are you?,' in that sober tone one employs with friends who have just emerged from rehab or a messy divorce." Keller's speech appeared on the Web site of its sponsor, the Guardian, under the headline "NOT DEAD YET." Perhaps not, but trends in circulation and advertising––the rise of the Internet, which has made the daily newspaper look slow and unresponsive; the advent of Craigslist, which is wiping out classified advertising––have created a palpable sense of doom. Independent, publicly traded American newspapers have lost forty-two per cent of their market value in the past three years, according to the media entrepreneur Alan Mutter. Few corporations have been punished on Wall Street the way those who dare to invest in the newspaper business have.

Pelo Julio.

Michel Leiris

Tenho lido Michel Leiris religiosamente. África Fantasma - seu diário da expedição Dacar-Djibuti, de 1931 a 33 - tem passagens maravilhosas sobre todos os assuntos que interessam: viagens, literatura, antropologia, psicologia, etc., e, se quiser, mulheres. Um espetáculo.

Algumas passagens (daqui):

24 DE MAIO DE 1931

"Começa a fazer tempo bom e calor. Pela manhã, conversa e aperitivo com o comandante. Ele nos conta que os kruman da embarcação têm o costume, quando querem combater a febre, de introduzir uma pimenta no ânus. Por outro lado, a pimenta é um dos elementos essenciais da alimentação deles. Também nos disse que, em determinados portos africanos, para combater o alcoolismo, proibiu-se até a importação de álcool inflamável.

À tarde, grande sessão de engraxar botas e sapatos sobre o convés, torrando ao sol. Estamos agora ao largo da costa do Marrocos. Alguns sinais de regiões quentes: surgem baratas nas paredes; durante o almoço, algumas formiguinhas passearam pela toalha de mesa e subiram no pão.  À tarde, avisto águas-vivas de cristas violetas deslizando ao longo do casco do navio. Passei a noite com Griaule, no castelo da proa, conversando; ele deitado, eu sentado, olhando a roda da proa, o céu, a espuma etc. Lembrança de uma canção: Nous partons pour le Mexique/ Nous mettons la voile au vent..." (Em tradução livre: Partimos para o México, zarpamos a todo vapor).

23 DE JULHO DE 1931

"Sonhei que uma de minhas apreensões se realiza e que começo a ficar careca de verdade. O que se manifesta pela formação, sobre a parte direita de minha cabeça, um pouco à frente do occipício,     de um lugar descoberto que, visto de perto, se revela arenoso e pedregoso, com um pequeno oco que posso escarafunchar com o indicador, como escarafuncharia uma escavação arqueológica, e cuja forma alongada me faz lembrar um sarcófago... Griaule, por sua vez, febril, sonhou outra noite que deveria levar leões a um museu.

Afora isso, chuva e 99% de umidade no higrômetro. Larget – com quem saímos em busca de outras lapas e outras grutas e que, mais uma vez, descobre grafites – me fala de geologia e paleontologia. Para mim, o martelo que leva eternamente à mão e seu jeito desengonçado evocam sempre o velho mineiro de Goethe, Zacharias Werner, ou então Wilhelm Oken, a teoria netuniana e os Naturphilosophen do romantismo alemão".                  

30 DE ABRIL DE 1932

"O motorista, que passou a noite com amigos, está completamente bêbado. É preciso impedi-lo de       fazer qualquer coisa, pois quebraria tudo. A volta sem pneus de reserva é muito inquietante: com um pouco de azar, o menor contratempo poderia nos deter por dois ou três dias. Felizmente, tudo corre bem. Tivemos de parar com freqüência, o bêbado sentia vontades incessantes de mijar e se queixava com voz pastosa em abissínio…

Agora, a carniça de camelo foi abandonada pelos abutres. Está completamente limpa. Restaram apenas os ossos.

Choveu ontem. O caminho está bastante enlameado. Quando as chuvas se instauram isso deve virar um senhor lamaçal!

Griaule envia um novo telegrama a Adis Abeba, informando que a alfândega de Gallabat ignora tanto os vistos de entrada como os telegramas em francês que nos foram enviados. À noite, tornados ameaçadores. Céu, mais do que nunca, carregado de nuvens hipertrofiadas. Veios de raios. Farrapo de céu cor de enxofre ou azul metálico. Muito suor e pouca chuva orvalham em gotículas. Subi romanticamente no terraço para ver a procissão de tempestades avançar; desci para jantar."

14 DE SETEMBRO DE 1932

"Não pude manter atualizado este diário nos últimos três dias. Ocupado demais, vi coisas  demais.

Faltou pouco para eu ser privado do sacrifício a Abba Moras Worqié, sobrevindo um drama familiar (rapto de uma moça, seguido de briga, ou ameaça de briga) domingo, na casa de Emawayish, em Qeddous Yohannès, seu bairro. Mas apesar do transtorno provocado pelo acontecido, o sacrifício foi realizado segunda-feira de manhã, como combinado. Vi Emawayish em transe fazer o giro com a cabeça e o balanceio pendular com o tronco, que constitui o gourri. Eu a ouvia, com uma voz mais grave do que a habitual, declamar o tema de guerra de Abba Moras Worqié, entremeado de rugidos. Eu a vi beber sangue. Eu até  a vi sentada, a cabeça coberta com o peritônio e o intestino enrolado ao redor da testa; depois, indo do meio da sobrancelha até a nuca, em forma de crista – véu delicado e cimeira orgulhosa resplandecendo  na penumbra, com um brilho um pouco azulado, lembrando a cor de suas gengivas, pintadas à abissínia, em cima, com dentes cor de leite. Eu nunca sentira a que ponto era religioso, mas de uma religião em que é necessário que me mostrem o deus... ".

26 DE DEZEMBRO DE 1932

[...] “Idéia de um conto, cujos elementos seriam tomados de empréstimo, no sentido mais amplo, da presente realidade. Uma personagem do gênero Axel Heyst. Igualmente gentleman, porém menos endinheirado. Muito mais tímido, ainda mais reservado. Atenção meticulosa que dedica ao vestuário. Uma mancha na roupa branca o enlouquece. Mesmo impecavelmente vestido, parece ter sempre vergonha. Perfeição de suas toalhas de mesa e de seus guardanapos. De ordinário, é calado. Muito raramente (do nada ou se toma alguns uísques) se anima. Portanto, fala com um tom frio e arrogante, tratando os assuntos sexuais com uma espécie de cinismo que também pode ser uma forma de objetividade científica. Exerce uma atividade qualquer numa colônia qualquer. Não é sociável, mas é capaz, como Axel Heyst, de ser obsequioso. Uma só vez, ele se permitiu um pouco; numa conversa, durante um jantar de homens, disse rindo que as questões sexuais não lhe interessavam pessoalmente, dado que é impotente. Essa brincadeira agradou muito. Axel Heyst agora passa por ser capaz de se mostrar, de acordo com as circunstâncias, um companheiro jovial. Como nunca se soube da existência de mulheres, acredita-se que seja homossexual; o cinismo de algumas de suas palavras pode ter contribuído para isso. Por outro lado, diz com muita naturalidade que as mulheres não são necessárias, pois existe a masturbação. Alguns dizem que não é “homem”: não faz nada, não caça, é muito mole com os indígenas, se atormenta com muita facilidade. Entretanto, em circunstâncias graves, chegou a mostrar sangue-frio. Até aqueles que mais o denigrem, lhe concedem alguma dignidade. Mas é certo que não gostam dele. O único homem a quem está um pouco ligado é o médico, com quem conversa muitas vezes sobre ciências naturais e   etnografia. Mas, com o médico, não passa disso. Nunca é cínico e evita cuidadosamente tudo que     possa estar relacionado à sexualidade e à psicologia.

Um belo dia, uma novidade corre a colônia: há uma mulher em sua vida. À noite, um moleque viu uma indígena entrar na casa dele e sair alguns minutos depois. Mas nada na atitude de Axel Heyst permitiria supor que algo tenha mudado. Ainda freqüenta o doutor com muita regularidade, ou vai jantar na casa dele ou o convida para jantar. Uma noite, o doutor está pronto para dormir quando Axel Heyst chega, desculpando-se muito. Segura o lenço como tampão sobre a testa, perto da têmpora, e o lenço está manchado de sangue. O doutor pergunta o que acontece. Um pouco constrangido, Axel Heyst responde que se feriu ao descarregar o revólver. Bastante confuso, diz, abaixando os olhos e sorrindo, que o conhecem bem na colônia, que não é caçador nem soldado, que não tem o hábito das armas, que é muito desajeitado etc. O doutor faz um curativono ferimento – que é superficial –, manda-o embora.

Algumas semanas depois, o doutor vem a saber que Axel Heyst – que deveria ir à Europa em férias – não viajou. Durante todo esse tempo, ele saiu muito pouco. Como também partirá em viagem, o doutor quer se despedir de Heyst; passa várias vezes na casa dele, mas não o encontra. Finalmente, embarca sem o ver. Conhecendo Heyst, tão educado, não é  capaz de conter certo mau humor” [...]

Uma música

Não acabou

Muitas perguntas se este blog acabou. Não acabou. Este blog descansa; ou mehor: eu descanso dele. Só. Pretendo voltar daqui a umas - não sei... - duas, três semanas, num ritmo mais, digamos, animado, com dois ou três posts por semana.

Aguardem e, enquanto isso, assistam este videozinho, direto do Orkut do Daniel Galera:

O que conseguimos fazer

Recebi agora o email que o Ben Casnocha envia trimestralmente, com idéias e dicas bacanas, e com uma citação do John Steinbeck que acho impecável:

"A human being should be able to change a diaper, plan an invasion, butcher a hog, conn a ship, design a building, write a sonnet, balance accounts, build a wall, set a bone, comfort the dying, take orders, give orders, cooperate, act alone, solve equations, analyze a new problem, pitch manure, program a computer, cook a tasty meal, fight efficiently, die gallantly. Specialization is for insects."

Viagem a Darjeeling

Viagem a Darjeeling é dos filmes mais bacanas que já assisti. Tudo perfeito. Tavez Wes Anderson seja o cineasta que eu gostaria de ser, se fosse cineasta e, confesso, mais inteligente. Assita o trailler aqui e, por favor, assista o filme, que é um espetáculo em todos os sentidos: pelas músicas, pelas cores, pelos personagens, pelas piadas, etc.

Viagem a Darjeeling é, como toda viagem espiritual, uma viagem antes psicológica, sentimental. E, portanto, tão engraçada quando estranha.

Um livro de viagem

"A travel book, at its purest, is addressed to those who do not plan to follow the traveler at all, but who require the exotic or comic anomalies, wonders, and scandals of the literary form romance which their own place or time cannot entirely supply."

Do "Abroad", de novo, do Paul Fussell, que é um livro - sobre livros de viagem - maravilhoso.

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Um poeta

"Como consolar viúvas", "Inferno carnal", "A mulher que põe a pomba no ar", "A virgem e o machão", "Sexo e sangue na trilha do terror", "Delírios de um anormal", "48 horas de sexo alucinante": são alguns títulos de filmes do Zé do Caixão, que peguei agora na coluna do Ignácio de Loyola Brandão (desculpe a rima). Nunca vi um filme do cara, mas agora, só por causa desses títulos, fiquei com vontade. Talvez Zé do Caixão devesse ser poeta.

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Época do turismo

"Abroad", do Paul Fussell, é um livro sobre livros de viagens que tem frases perfeitas, como esta: "exploration belongs to the Renaissance, travel to the bourgeois age, tourism to our proletarian moment". Cada época, também em viagem, tem o seu espírito.

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Reparação

"Reparação", de Ian McEwan, que acabei de ler agora, é realmente, como ouvi várias vezes, maravilhoso. A sensação é aquela - passageira - de que finalmente entendemos o que sentimos. O final é especialmente encantador: "Agrada-me pensar que não é por fraqueza nem por evasão, e sim como um gesto final de bondade, uma tomada de posição contra o esquecimento e o desespero, que deixo os jovens apaixonados viver e ficar juntos no final".

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Um tempo

Um leitor de Portugal – incrível como os elogios do Francisco Viegas trouxeram leitores de lá – me perguntou se, nas últimas semanas, longe deste blog, andei seguindo o conselho de Fernando Pessoa:

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

E talvez seja mais ou menos isso mesmo: eu preciso de um tempo. Não exatamente de literatura, mas deste ambiente virtual, de blogs, que, se é divertido, também ocupa tempo e cansa. Claro que as coisas não necessariamente se substituem, e muita gente consegue viver extraordinariamente e publicar todo dia. Mas no meu caso, por vários motivos, essa combinação estava mais difícil nas últimas semanas.

Estou abrindo mão, então, do compromisso de publicar todo dia, religiosamente. Essa regularidade exagerada, aliás, nem acho o que é o que os leitores querem, já que, nestas duas últimas semanas, a visitação do blog continuou alta, apesar da falta de posts. Muitos leitores não conseguem acompanhar aquela sequência de posts diária, quase eufórica. Nem deveriam, aliás: sinceramente, tem muita coisa aí, longe da internet, que merece muito mais atenção.

Eu estou muito animado programando viagens para os próximos meses: para algumas capitais do norte do Brasil que ainda não conheço, ainda este ano; para alguma praia perdida no Nordeste noreveillon; para esquiar no Colorado, em janeiro, e seguir em conexão direta para a Tailândia; para o México e para Dubai, perto do carnaval; etc. Tenho também assistido filmes loucamente: tudo do Truffaut, alguns italianos, muitos lançamentos. Tenho aproveitado esta folga do blog também para ler mais. Estou encantado com Pragmatism, do William James, e sua defesa da "reasonableness of ordinary experience". Tenho lido tudo do Álvaro Lins , que é um deslumbramento estilístico, e cheio de dicas de autores hoje esquecidos. Proust e Machado, se fosse escolher aqueles três autores para uma ilha deserta, acho estaria satisfeito só com esses dois.

Enfim: este post não é a despedida deste blog nem um manifesto contra a experiência de ter um blog. Continuo publicando aqui, agora com outra regularidade e, talvez, vamos descobrir depois, com outro estilo e sobre outros assuntos.

Enquanto isso, fiquem com um pedaço da apresentação de Abroad, do Paul Fussell, que tem me inspirado muito nos últimos dias:

"This book is about travel writing, but it is also about travel, so I have dealt not just with books but with ships and trains, passport photographs and national borders and small French seaport towns, hotels and cafés and beach resorts, architecture ancient and modern, food and drink, nude sunbathing, and sex, both procreative and recreational. I have dealt with icy trenches and sunny patios, West African and Brazilian chiggers, touts of all nations, suntan oil, oranges and palm trees, the symbolic status of weather, the psychology of the sense of place, the spatial discolations characterizing "modern" writing, and the once indispensable mecums of Baedeker and Tauchnits. (...) to suggest what it felt like to be young and clever and literate in the final age of travel."

Os escritores como eles podem ser

Foi ao ar, hoje, a partida da Copa de Literatura Brasileira que apitei: entre Bóris e Dóris, do Luiz Vilela, e Pelo fundo da agulha, do Antonio Torres. Já elogiei Bóris e Dóris aqui. Mas fui muito duro com o livro do Antonio Torres. Também, o cara demorou 30 anos para escrever uma "trilogia sobre o suicídio" e escreveu um livro com passagens como "amor rima com flor".

Alguns comentaristas reclamam que peguei pesado com a pessoa, etc. Bobagem. Jamais eu ofenderia o escritor pessoalmente. Disse apenas que Antonio Torres é um "escritor mixuruca com ambição intergaláctea". Uma ótima pessoa – como sinceramente acredito que Antonio Torres seja – pode escrever um péssimo livro. É a vida.

As pessoas como elas são

Para quem não entendeu: o post anterior não foi um elogio ao Sarney nem – muito menos – ao governo dele. Disse apenas que ele me pareceu um leitor sincero. O fato dele gostar de ler não significa que seu governo tenha sido bom nem que ele seja moralmente intocável. Se disse que não sei se ele fez um bom governo, quis dizer, antes, que não estava preocupado com isso quando escrevi o post. Só acho meio bobo quem: (1) não entende que você pode concordar com uma pessoa num ponto e discordar em outro e (2) critica com a maior violência pessoas que não conhece enquanto, no dia-a-dia, suporta feliz o relacionamento com gente que é, no máximo, uma sub-expressão dessas personalidades de quem tanto resmungam.

Sarney: um bom leitor e um ex-Presidente

Sarney está falando para 15 ou 20 pessoas na Casa do Saber. Ele fala fácil, leve; é muito articulado. Não à toa é reconhecido como o político mais influente do Brasil. Sarney recebe elogios por aí de gente que admiro, como Cony e Ferreira Gullar. Escreveu - disse - 68 livros, e não consegue passar um dia ser ler.

O interesse de Sarney pela literatura me parece muito autêntico. Ele tem uma intimidade rara com a maioria dos escritores brasileiros, e acho que leu quase tudo que um presidente brasileiro precisaria ler.

Algumas frases curiosas de Sarney, hoje: "Se me perguntassem se prefereiria ser Presidente da República ou escritor, prefiro mil vezes ser escritor", e "eu nunca quis ser Presidente e lutei toda a minha vida para ser escritor". Não sei se Sarney foi um bom presidente, mas ele nunca me convenceu como escritor. Talvez ele seja mesmo, e apenas, um bom leitor, e, como escritor, um bom político. Nem todo mundo é o que se quer ser - e alguns têm que se consolar com cargo de ex-Presidente do Brasil.

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Santiago e o Rio como ele deve ser

"Santiago" - o documentário do documentário que João Moreira Salles começou a fazer, há treze anos, sobre o mordomo da sua família - tem passagens ótimas. Muita gente reclamou dos defeitos, óbvios, de um cineasta iniciante que estava aprendendo a fazer entrevistas, etc. Mas os bons momentos são maravilhosos.

Algumas frases da narração são impecáveis: "Mais tarde, e aos poucos, a juventude foi ficando pra trás", e sobre o método de consôlo de Santiago: "e com essas pequenas coisas [uma castanhola, etc.] conseguiu suportar a melancolia de quem sabe que as coisas não fazem mesmo muito sentido".

A casa na Gávea é um espetáculo à parte. Fico praticamente ali do lado - um quarteirão - sempre que vou ao Rio. Não conheço lugar mais agradável para ir ao cinema: aquela sala pequena, com uma parede de vidro aberta para o jardim de - se não me engano - Burle Marx -, é fantástica. É o Rio como ele deve ser - ou um dia foi.

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Menos um Centro de Estudos sobre o Brasil

Descobri agora – por um texto do Jairo Saddi, no Opinião Aberta do Estadão – que o Centro de Estudos sobre o Brasil em Oxford fechou. É triste. Passei um mês lá, em janeiro de 2005, ajudando o diretor do Centro, o Kurt Von Mettenheim, numa pesquisa, enquanto pensava em fazer um mestrado em economia na Universidade. O Centro era extremamente bem frequentado: me lembro de conversas ótimas nos corredores, com brasileiros e estrangeiros interessados pelo Brasil.

Às vezes saía de lá umas 10 da noite, e esbarrava na escada com estudantes debruçados em livros que tinham que resenhar para o dia seguinte. Havia na parede um quadro com uma sequência de frases de Gilberto Freyre sobre Oxford, dos três meses em que passou lá, com frases como: "a melhor temporada da minha vida". Escrevei duas colunas – Inesquecíveis aventuras e Com pouco peso – dos computadores do Centro de Estudos, à noite, depois de consolidar estatísticas sobre a evolução dos partidos políticos brasileiros e antes de sair com amigos para jantar. Saudades.

Última coluna do Cesar Giobbi

Hoje foi publicada a última coluna do Giobbi no Estadão. Era a única coluna social que conseguia ler. Muitas coisas saiam lá antes. Era uma referência para muita gente. Não sei como pode ser substituído, porque acho que seus assuntos, suas preocupações, são um pouco diferentes dos das colunas sociais que vejo publicada em outros jornais ou revistas. Talvez - já que ele pediu idéias - seu espaço mais adequado seja na internet também. Virou nicho.

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Diário da Corte

O Alexandre tem acho que centenas de colunas do Paulo Francis recortadas. Ele está pensando em fotografá-las e republicá-las, às quintas de domingos, como o Francis fazia. Reli agora pedaços do que ele republicou desta primeira vez. Tem coisas fantásticas, como:

"Comprei a entrada em maio e vejo em 1 de setembro "Crazy for you", louco por você, um arranjo com músicas de Gershwin. Dos três maiores letristas americanos, dois não gostavam de mulher, mas Ira, irmão de Gershwin, adorava, e o sensualismo dos dois é glorioso. O show, nada de se contar ao bispo, excesso de microfones, e, ah, quem dera que, em vez de Harry Groener, tivéssemos Gene Kelly, 80, ou, em vez de Michele Pawk, Judy Garland. Mas o balanço da música e letra dos Gershwins nos carrega pela noite afora. Do escambau."

ir lá e pedir para o Alexandre continuar publicando. Também seria do escambau.

Daniel Piza sobre biografias e Machado

Daniel Piza falou muito bem ontem na Casa do Saber. Pedro Paulo [Senna Madureira] convidou Daniel para conversar sobre biografias e particularmente sobre a sua sobre Machado de Assis. Daniel falou sobre Samuel Johnson - um "gigante" -, Henry Adams, Joaquim Nabuco. Disse que gostaria de escrever as biografias de Graciliano Ramos - um dos três brasileiros que mais admira (Joaquim Nabuco e, claro, Machado são os outros dois) - e Iberê Camargo (como não deixar o assassinato dominar a história da sua vida?).

Li só pedaços da biografia do Daniel. Mas o estilo dele é sempre impecável, e isso deve ter encantado muita gente que não conhecia a sua, como disse Pedro Paulo, assinatura. Gostei de saber das pequenas coisas que afetaram significativamente a vida de Machado - mas que os biografos antigos quase ignoraram -, como os efeitos colaterais dos remédios que tomava. Daniel também disse que fez grande esforço para desmontar a imagem predominante que temos de Machado, do melancólico solitário, que se resume aos últimos anos da sua vida. Machado era bom piadista, segundo Daniel, e circulava bem socialmente, mais jovem.

O Polzonoff, aliás, foi até citado na aula, como exemplo de alguém que ficou com raiva de Machado pelos defeitos que foi descobrir que ele tinha depois de ler a biografia - um puxa-saco, em bom português, de Dom Pedro II. E outra coisa: incrível como as pessoas ainda lembram do trabalho espetacular que o Daniel fazia no Fim de Semana da Gazeta Mercantil. Eu tenho saudades, mas faz tempo que não falo sobre isso, e um pessoal lá fez questão de lembrar a qualidade daquele caderno. Bons tempos, aqueles.

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Frases da Copa do Brasil de Literatura

O André Gazola está fazendo uma marcador muito simpático com as frases que os jurados da Copa do Brasil de Literatura escolheram dos livros que leram para esta primeira rodada. Gostei em especial desta quase boba mas muito verdadeira do Memorial de Buenos Aires: "O tempo corre do mesmo modo, que o desperdicemos ou façamos algo de útil", do Antonio Fernando Borges, e também da pergunta "O que fui fazer em Cabo Frio?", de O Adiantado da hora, do Cony, ambas escolhidas pelo Jefferson.

As frases dos livros que li não entraram nesta versão – o André está atualizando o marcador –, mas adianto quais são: "Amor rima com flor. E também murcha. Ficam os espinhos nas extremidades do caule", do Pelo fundo da Agulha, do Antonio Torres, e de Bóris e Bóris escolhi este diálogo: "- E acho que finalmente... Finalmente, Dóris, e é isto que eu ia te contar, esta é a grande notícia que eu ia te dar: finalmente eu vou realizar o grande sonho da minha vida. – Cuidado, você vai sujar a gravata aí no prato." Uma delas achei péssima mas ilustra bem a qualidade do livro – adivinhem. (Publico aqui o marcador assim que o André atualizá-lo, claro.)

"Domicílio conjugal" e Truffaut

Assisti hoje "Domicílio conjugal", de Truffaut, duas vezes seguidas. Tudo bem que dormi um pouco na primeira vez, mas não foi só por isso. Me lembro de "Os incomprendidos", que assisti no cinema acho que há uns dez anos, sozinho, e havia ali uma verdade tão triste que - talvez também fosse o momento - me deprimiu um pouco. E imaginava Truffaut sempre assim: como um cineasta que mostrasse inteligentemente, maravilhosamente aquelas verdades que preferimos esquecer. Mas encontrei em "Domicílio conjugal" o espírito do diretor que tem uma das frases mais esquecidas e mais úteis sobre o relacionamento humano: "a vida é curta demais para se perder tempo em discussões inúteis". "Domicílio conjugal" é - para usar o mesmo adjetivo do amigo que me recomendou que assistisse - sublime.

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Quem tem medo do Google

Ontem li com mais cuidado a reportagem sobre o Google na Economist e hoje instalei o Google Apps para todo mundo na empresa. Não sei se o Google um dia vai dominar o mundo, mas a minha vida ele praticamente já dominou. Eu – pelo menos – não tenho medo deles.

Como construir castelos

"If you have built castles in the air, your work need not to be lost; that's where they should be. Now put the foundations under them." Henry David Thoreau, em Walden

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Só coisa boa

Leio meus feeds no Google Reader enquanto espero meu amigo chegar no restaurante. Só coisa boa. Não peço mais jornal.

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"O segundo tempo", de Michel Laub, é eliminado nas oitavas

Mãos de cavalo, do Daniel Galera, é o livro que eu achei que fosse ganhar a Copa de Literatura, mas O segundo tempo, do Michel Laub, é o livro que eu queria que ganhasse – mas a Olivia preferiu Música perdida, do Luis Antonio de Assis Brasil. Gosto muito do estilo fluente, fácil, bonito do Michel. Sua opção por personagens adolescentes em situações dramáticas dá aos seus livros um clima leve ao tratar momentos decisivos na vida de seus personagens. Seus livros são de uma elegância, de uma naturalidade encantadoras, e seu texto é, dos escritores brasileiros contemporâneos que conheço – poucos, é verdade –, o que mais tenho prazer em ler.

Mas também: seria demais se um livro repleto de referências sentimentais ligadas a futebol – como é O segundo tempo – fosse campeão da Copa de Literatura Brasileira.

Algumas frases do Pedro Paulo Senna Madureira

Desta vez não resisti e anotei algumas frases do Pedro Paulo Senna Madureira, ondem, na Casa do Saber. Algumas são fascinantes:

  • "Flaubert nada mais é do que o atestado de óbito da burguesia."
  • "Esse Second Life é uma caricatura boçal do que Julian Sorel [de O vermelho e o negro] queria ser."
  • "Stalin é um caso aberto de psicanálise."
  • "Fidel Castro é um sub-produto de tudo isso [Stalin, Mao, Hitler]. Um horror, um horror."
  • "O horror da ditadura de esquerda e direita é o mesmo. Mas ninguém lê mais os fundadores da teoria do nacional-socialismo, e você continua lendo Marx, Gramsci."
  • "Erza Pound não era fascista nem nazista. Era fascinado por Mussolini."
  • "Mao Tsé-tung é um ótimo poeta."
  • "Eliot é nitida e abertamente anti-semita. Passaram por cima disso em Eliot. Erza não perdoaram."
  • "O horror moderno está na cara de Erza. Ele engoliu tudo porque se maravilhou com o horror [Mussolini recitando Dante]."
  • "O horror menos shakespereano é Hitler. Perto da cultura de onde Mussolini vem, Hitler é um palhaço, um bufão."
  • "Eu, em 1962, com 15 anos, antevia um futuro. Hoje, que futuro um menino de 15 anos vê - a não ser que emprego vai ter e como planejar uma família?"
  • "Hoje não tem biografia. A biografia não interessa mais."
  • "Escritor nunca foi profissão. Eles tinham que ter um emprego para se sustentar."
  • "Se você compara essa meninada toda [escritores] que veio depois de 2000 com a entrevista da Lygia Fagundes Telles [na Entrelivros], você vai ficar horrorizado."
  • "Essa última Bienal foi pobre, feia, miserável."
  • "Sexualidade é um assunto de que não se fala. Isso é coisa de Hebe Camargo."
  • "Quem é a amante de Lula? Até nisso ele não saiu de Garanhuns."
  • "A mulher mais poderosa do mundo hoje parece um hipoglós."
  • "Se você não interromper mais, eu agradeço."
  • "Toda religião é radical. A menos radical é a cristã."
  • "A biografia, sobretudo num mundo sem referências [como hoje], nos ajuda a viver."

Antologia de Ferreira Gullar

Muito lúcidas as respostas do Ferreira Gullar na seção Antologia Pessoal, hoje, domingo, no Estadão. Legal saber que ele não cansa de reler Machado e que não gosta e Beckett porque "não posso gostar de uma coisa que me faz mal. (...) Você pode dizer que é uma coragem o cara encarar isso [que o sentido da vida é inventado por nós], dizer que não tem sentido mesmo, mas isso não adianta nada! Tanto não leva a nada que ele aceitou o Prêmio Nobel".

E sobre artes plásticas o autor de Tanga ele vai direto no ponto: "Nas artes plásticas, para mim, não tem fácil ou difícil; não vejo assim. Ela não tem de ser decifrada, tem que ser sentida. Ela não fala a nossa inteligência verbal lógica, fala às nossas emoções. Tem gente que fica preocupada, acha que arte evolui. Que você tem que aceitar um cara colocar cocô não-sei-onde e mandar para galeria. Na arte contemporânea, na maioria dos casos não é arte, é expressão". É verdade: e cada um pode se expressar com o material com que mais se sente à vontade.

Um jantar romântico

Ontem à noite, no Condessa, na Vila Nova, ouvi uma frase - do namorado pra namorada, na mesa ao lado - de uma delicadeza sentimental comovente: "Você dorme feito uma vaca velha".

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Contra o portal Terra, do Grupo Telefônica

O Digestivo Cultural é o maior e melhor site brasileiro sobre assuntos como literatura, música, cinema, jornalismo, gastronomia, etc. O Digestivo revelou alguns dos melhores blogueiros brasileiros – Alexandre Soares, Fabio Danesi, Rafael Rodrigues, etc. –, publicou os maiores nomes do nosso jornalismo – Daniel Piza, Sérgio Augusto, Sônica Nolasco, etc. – e é frequentado pelos melhores leitores – Michel Laub, Diogo Mainardi, Ricardo Freire, etc. O Digestivo é, na internet, – e aproveitando a data de hoje – quase uma proclamação da inteligência nacional.

O Julio deixou o mercado financeiro há seis anos para se dedicar exclusivamente ao Digestivo. Ele programou o site na unha, redigiu milhares de Digestivos, escreveu dezenas de colunas, reviu centenas de colunas, trouxe os melhores colaboradores, revelou novos talentos, fez entrevistas antológicas, atraiu patrocinadores de peso. O Digestivo é um caso de empreendedorismo brasileiro exemplar: de uma empresa super-enxuta, rentável, com um produto da mais alta qualidade que é distribuído aos seus clientes gratuitamente. Sem saber que era impossível, o Julio foi lá e fez.

Há uma semana, por problemas técnicos da Telefônica, o Digestivo está fora do ar. O Julio me passou o chat com o Kleber Silva, atendente da Telefônica, e a conversa é arrepiante: "Não foi informado um prazo para a solução", "onde há um problema com o banco [de dados] é bem delicado de ser tratado", etc. Imagine: mais de cinco anos de trabalho diário, e você não saber onde foi parar o seu banco de dados. Independentemente do problema ser consertado - e espero do fundo do coração que seja –, o que já aconteceu, até agora, é de um absurdo assustador: o banco de dados mais inteligente da internet brasileira está correndo o risco de se esfarelar nas mãos de Klebers Silvas da vida.

A Telefônica só vai se mexer quando perceber que alguma coisa diferente está acontecendo. Precisamos então mostrar para eles que o mundo mudou – acho que eles não prestam atenção no que se passa dentro dos cabos do Speedy. Eu queria ver o presidente da Telefônica, Antônio Carlos Valente, resolvendo o problema do Julio com uma chave de fenda na mão. Se você também quiser, esta é uma idéia: escreva um post sobre o Digestivo no seu blog com o título acima: "Contra o portal Terra, do Grupo Telefônica". Para que o site volte rápido ao ar – e o Kleber Silva e o Antônio Carlos Valente descubram para que serve a internet.

Joost e a televisão

Estava assistindo agora algumas sinfonias de Mozart no Joost. É uma experiência fantástica. Não sei onde vai acabar a televisão tradicional, mas o caminho me parece que começa pelo ralo.

O blog que mais gosto

A lista dos meus shared items do Google Reader – que aparecem nesses "Cinco links" à direita – é mais ou menos o que seria o meu blog favorito: Brad Feld sobre o Lijt, Alexandre Soares sobre os últimos livros que comprou, Daniel Piza sobre Bonfati, Fred Wilson sobre time off, Ricardo Lombardi sobre o Lonely Planet do Afeganistão, Alessandro Martins sobre como ler no trânsito, Mark Cuban sobre a morte da internet, Carolina sobre os ingressos do TIM Festival, Robert Scoble sobre o blog do futuro, Ram sobre estar ocupado, Guy Kawasaki sobre ficar velho, Hugh Mcleod sobre casamento, Ben Casnosha sobre a Atlantic, Scott Berkun sobre venda de livros, World Hum fechando o verão, etc.

Essa lista de assuntos é a melhor resposta para quem: (1) reclama da qualidade do que está na internet e (2) defente a mediocridade monotemática e a redação pré-alfabetizada dos blogs mais populares do Brasil. As coisas interessantes nunca foram tão acessíveis e a conversa sobre elas nunca foi tão aberta.

Sobre o blog do Reinaldo Azevedo

Desisti de assinar o blog do Reinaldo Azevedo. Há um mês incluí ele no meu Google Reader, mas até agora não consegui ler um post inteiro. É curioso: eu acho que ele escreve bem e acho até que essa cruzada para derrubar Lula – em que ele e o Diogo Mainardi se envolveram – é muito saudável politicamente para o Brasil. Mas cansa. Concordo com praticamente tudo que ele diz mas não leio mais uma linha sequer do que ele escreve.

As porteiras se abriram

Hoje no Kinoplex eu vi pela primeira vez um cara usando o iPhone em São Paulo.

Enviado do meu BlackBerry®

Proust x Henry James

"Henry James é sub-Proust na língua inglesa." Pedro Paulo Senna Madureira, ontem à noite, na Casa do Saber.

Começa a a Copa de Literatura Brasileira

A Copa de Literatura Brasileira começou hoje com uma zebra: Daniel Galera – que votei como favorito para ser campeão – foi eliminado na primeira partida. Gostei de Mãos de cavalo, mas pensei que os jurados fossem gostar ainda mais. Como disse o Lucas, na apresentação da Copa: "O prêmio em si interessa pouco: bom é discutir quem merece ganhar antes e reclamar de quem ganhou e não devia depois". No site você pode dizer se concorda "com certeza" ou não concorda "nem um pouco" com os resultados, comentar a explicação do jurado, etc. Divirta-se.

Meu pé de laranja lima

Meu pé de laranja lima é um filme profundamente triste. Ele foi, durante anos, o meu filme favorito. Algumas cenas me marcaram muito, quando era criança, como a do menino cortando o varal das vizinhas e assustando uma grávida com uma cobra falsa na calçada. Mas assisti de novo, ontem, e reparei como é um filme diferente, de outra época. É uma história muito pura, muito real, mas com passagens que hoje seriam impossíveis: como a do dia em que Zezé passa trabalhando para comprar um maço de cigarros para o seu pai, os tapas que vive recebendo da família e mesmo de desconhecidos, etc.

Mas o filme não seria impossível hoje só por esses detalhes. Zezé tem cinco anos e está passando por um drama existencial comovente. Tenta se divertir, sonhar, conversa com as pessoas, mas quase ninguém consegue entendê-lo. A não ser Portuga, um homem rico e misterioso que acolhe Zezé como um filho. O desinteresse da relação entre eles parece hoje até estranho. Estamos acostumados a desconfiar de tudo. 

A salvação de Zezé – o que o salva do suicídio – não são as saídas convencionais que têm nos consolado no cinema ultimamente: não é a família, não são os amigos da escola, não é que ele descobriu que pode ser feliz mesmo sem dinheiro, etc. Zezé amadureceu quando descobriu que a maior dor é aquela que dói no fundo do coração e que não conseguimos compartilhar com ninguém. O Portuga foi alguém com quem ele compartilhou parte dessa dor por algum tempo; mas o Portuga sofre um acidente, morre, e Zezé, aos cinco anos, descobre que "estamos condenados a viver".

Meu pé de laranja lima também é um filme muito brasileiro. Vassouras, onde o filme se passa, poderia ser qualquer cidade brasileira: aquelas paredes descascando, as calçadas irregulares, o bar que serve limonada, as ruas em paralelepípedo, a pracinha no centro, etc. É exatamente como imagino o Brasil na época – até os anos 70 –, mas é bem diferente de como ele é hoje. Meu pé de laranja lima é uma história que não se escreve mais que se passa num Brasil que não existe mais. Parte da sua tristeza também está aí.

Estadão x Blogueiros: anotações enquanto assisto o video do debate

  • Muito bobo reclamar que "tem um monte de lixo na internet". Isso não é um "problema problema que tem que ser resolvido". As pessoas mais curiosas que conheço estão encantadas com a quantidade de coisas boas na internet. Este é o problema: selecionar essas coisas boas e, problema maior ainda, arrumar tempo para lê-las.
  • Gilson Schwartz – "intelectual da USP" – me pareceu o mais arrogante e o mais despreparado da mesa. Fala em "receptor", "capitalismo", "revolução, "elite intelctual", "grau de consciência", "meta-gestão do conteúdo", etc. Não tenho opinião sobre o que ele disse. Desde o colegial esqueci o que essas expressões significam.
  • O Edney disse uma coisa interessante que quase ninguém ouviu: que os blogs no Brasil ficaram com fama de diário de menininha porque esse era o título da primeira reportagem sobre blogs em algum jornal ou revista impressa. Ou seja, por causa de um jornalista de um Estadão da vida não entendeu o fenômeno.
  • Parece que só o Edney leu The Long Tail, que a revista impressa – se quiser assim – de maior credibilidade do mundo, a Economist, chamou de "a teoria econômica mais elegante da atualidade".
  • Blog não é jornalismo. É muito mais do que isso.  
  • Muito blá, blá, blá tentando entender e teorizar sobre blogs, jornalismo e comunicação. Deveriam aproveitar mais as coisas como elas são– ou conversar como aproveitá-las – e pronto.
  • Pedro Doria acha que a blogosfera tem um problema de escala. Blog é uma solução para o problema de escala. Quem tem problema de escala são os jornais impressos: imprima um milhão de jornais e monte um blog com um milhão de acessos e compare os preços.
  • Sinto que jornalistas estão defendendo seus patrões e, talvez até inconscientemente, seus empregos. Que papo é esse de jornal impresso ser mais independente? Leia press-releases de filmes e compare com o que sai no Estadão às sextas: é constrangedor.
  • João Livi mandou bem quando disse que a internet é igual à humanidade: não importa se é boa ou ruim porque é inevitável.
  • O chefe de redação da Trip, revista do Paulo Lima, mediador do debate, é um dos primeiros a aproveitar o que resta de anonimidade na internet para espalhar seus ataques histéricos nos blogs dos outros.
  • Internet anônima é coisa dos anos 90. Todo mundo tem – ou vai ter – perfil na internet. O Facebook não está explodindo por outro motivo. Como eu vou confiar na recomendação musical de alguém que eu não conheço? O Last FM compara a sua afinidade com a da pessoa. Leia estes posts recentes do Hugh Mcleod e do Fred Wilson para entender como este problema vai ser resolvido.
  • As bobagens mais perigosas do mundo – tipo comunismo – nasceram em e/ou foram espalhadas pela academia e por jornais impressos: em tom "científico", de "informação precisa", de "compromisso com a verdade", etc.
  • Nos bastidores as coisas são bem diferentes. Acho ilustrativa a cena que vi na sala de imprensa da FLIP: o crítico literário do Estadão consultando tudo na Wikipedia, e o primeiro parágrafo do seu texto, no dia seguinte,  praticamente igual ao que um conjunto de amadores escreveu e publicou na internet – sem ninguém checar a "credibilidade" disso.
  • Desde que tenho um blog, recebi muito mais dicas boas de livros, filmes, etc., dos meus leitores do que no Caderno de Cultura do Estadão.

Assista o video está no Rodrigo Barba.

Ben Casnocha e cuidado com o BlackBerry

Estou lendo "My Startup Life", do Ben Casbocha, que montou a sua primeira empresa com 13 anos. O livro é cheio de dicas úteis para empreendedores, e o blog dele - que sempre cito nessa lista de cinco links, na coluna direita deste blog - é dos que mais tem me dado prazer em ler ultimamente. Ele escreve muito sobre a importância do desenvolvimento pessoal, e gosta bastante de psicologia e filosofia - peguei boas dicas de escritores com ele. Ben tem 19 anos, vive viajando pelo mundo, escreve muito bem e tem interesses variados. É o tipo de blog que gosto de ler. Li agora - na metade do livro - que ele sofreu um acidente de carro enquanto estava distraído checando o BlackBerry. Fiquei assustado - vou tentar me organizar de outra forma, e espero isso não comprometa a regularidade dos posts aqui. ;-)

Enviado do meu BlackBerry®

Joseph Campbell

Ando fascinado com a leitura e Joseph Campbell. Sempre achei mitologia um assunto muito obscuro, erudito, quase inacessível. E psicologia - como ciência - nunca me interessou particularmente. Mas Joseph Campbell escreve sobre mitologia de uma forma fácil, encantadora, e suas observações sobre psicologia são de uma lucidez incrível.

Estou lendo "The Hero with a Thousand Faces" em êxtase. "The Call for Adventure" e "Refusal of the Call", os primeiros capítulos, têm passagens maravilhosas, e o efeito da leitura é praticamente o mesmo - como me disse o amigo que me recomendou o livro - da melhor literatura.

Joseph Campbell acha que o que buscamos não é o sentido da vida - mas a experiência de estarmos vivos. Não me lembro se Tim Ferriss, no seu "The 4-Hour Work Week", cita Campbell, mas tem uma passagem lá em que